22 de agosto de 2017

Entrecho: Fera

Jonas não era só um excelente soldado, mas um grande amigo também.

Eu me culpava pela morte de Jonas. Minha falta de atitude, talvez minha inexperiência, talvez minha covardia. Eu não o salvei a tempo. Dois disparos. Os criminosos foram pegos dois dias depois, mas eu não quis vingança. Isso não traria Jonas de volta e nem me faria mais feliz.

A família dele chorou muito. Esposa e um garoto de só seis anos de idade. Eu ainda os vejo de vez em quando, é triste ver que o filho vai crescer sem o pai.

Três anos se passaram e estou de volta as ruas como PM. As noites da capital são frias e perigosas, mas somos ensinados a não ter medo. Pelo menos não medo do natural.

Essa é história de uma coisa que aconteceu a mim e meu parceiro e que não pode ser explicada. Talvez um sinal de outro mundo, não sei.

Era quinta-feira, 4 de novembro de 2015. William e eu já estávamos patrulhando havia alguns dias, já nos conhecíamos bem. Um rapaz inteligente, dez anos mais jovem do que eu.

Uma ocorrência nos apareceu. Uma mulher havia sido atacada, perto do cemitério na Rua das Flores. Tentativa de estupro? Foi o que pensamos.

Um alvoroço no meio da rua. Assim que chegamos recebemos mil explicações. As pessoas estavam dizendo que um "bicho" havia saído do cemitério para atacar a pobre mulher voltando pra casa. Muitos acharam ela louca, como nós mesmos.

Tinha alguém se escondendo naquele lugar. Claro, vendo como é um cemitério escuro e quase abandonado. Acho que nem tinha coveiro, pelo menos não naquela noite.

Todos logo se trancaram em casa, com medo de qualquer coisa. Armas e lanternas em mão, partimos para verificar o local. Era uma atmosfera estranha lá dentro, quase que como eu já conhecesse o lugar. Em alguns pontos do cemitério você sentia um frio na barriga, um vento no pescoço.

Nada. Mas William achou que deveríamos procurar melhor, afinal o cemitério era enorme. Ele foi pra viatura para chamar reforços e eu me encontrei sozinho naquele breu.

Não demorou para me sentir solitário... demais. Parecia que eu estava em outro lugar, ainda mais escuro e vazio. Eu senti uma presença... morte. Ou talvez vida, mas uma vida corrompida e arruinada.

Eu corri na direção do portão, mas não consegui alcançar nada. Não haviam mais luzes, nada. Era perdição.

E eu ouvi a criatura.

Como o rosnar de um cão, só que mais brutal. Parecia estar em todos os lados ao meu redor, me circulando. Eu já estava branco neste momento. Isso não era natural.

Movimento. Um vulto. Era um enorme cão negro que se sustentava em duas pernas. Olhos azuis, enormes e brilhantes. A boca engoliria minha cabeça facilmente, e poderia arrancá-la com uma patada.

Eu tentei correr, mas ela sempre me alcançava, mas nunca atacava.

Então eu atirei. Mas errei. Atirei e errei. Tentei correr, estava cansado mas corri. Não alcancei a saída.

Estava claro que eu morreria ali. Ou talvez ficasse preso. O monstro não me atacava.

Eu me ajoelhei, me entregando ao animal. Mas a fera se aproximou, me estudante com seus olhos gigantes.

- O que temes? - ela perguntou.

Uma voz serene. Familiar. Amigável, até sábia.

- De tudo. De morrer. De me perder. De falhar - eu respondi, cabeça baixa.

- Tu nunca falhaste. Tu nunca perdeste. Ao aceitar teu destino, tu demonstras coragem, pois eu estava preste a devorar-te.

Eu olhei para ela.

- Mas meu amigo morreu e eu não o salvei... - eu disse.

- Tu não és capaz de salvar a todos sempre - ela respondeu - Aprenda teu lugar, tua força, e saberá viver sem temer a nada. O lamento não ajuda.

- O que é você? - eu perguntei.

 A criatura se afastou, adentrando na escuridão e saindo da luz de minha lanterna. Seu sorriso canino se transformou na feição mais linda do mundo.

- Eu o fogo que arde no coração dos homens.

E foi embora.

Eu me levantei, quase desabando. Pude ouvir William me chamando por trás. Eu corri em direção a sua voz.

Mais dois policiais haviam chegada, eles continuarão as buscas naquela noite. Eu pedi para o capitão via rádio para voltar pra casa, não estava me sentindo bem.

Eu ouvi dizer no outro dia que não encontraram ninguém no cemitério. Eu acredito que havia mais lá do que se pode imaginar. Aquela foi a noite mais estranha de minha vida e eu nunca contei isso a ninguém.


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