25 de novembro de 2019

Matemática

Números e equações são
para muitos uma enorme
dor de cabeça.
Mas não há ciência sem
aritmética, não há métrica
sem uma fórmula geométrica
e não existe espaço nem
matéria se não pudermos com
números e equações
calcular suas incríveis
medições.

16 de novembro de 2019

O Ignorante

Eu não sei
Não sabia
Não saberei
Para onde eu for
Nada eu direi

Pois sou só um tolo
Sem nada para falar
A ignorância em mim manda
E manda eu me calar
E assim eu quero estar

Amor Marginal


Marcos lembrava-se bem do rosto de sua vítima. O jovem ladrão nunca antes havia visto um rostinho tão lindo. Era de um natureza que por si só desafiava o seu jeito marginal de ser. Aconteceu numa rua pouco movimentada. A moça loira caminhava pelo calçamento, provavelmente voltando do trabalho. Parecia ter condições, admirável como resolveu ir a pé. Pouco ela sabia que Marcos já planejava naquele dia cometer um assalto. Já fora molequinho malandro, criado nas ruas, esperto para a maldade. Roubava para depois vender. Assim funciona o crime. As consequências não são estimadas por esses tipos bandidos. O mesmo valia para Marcos. No momento em que avistou a moça, esta estava de costas para ele. Marcos pilotava uma moto. Não usava capacete e nem óculos, só um boné. Era bandido solitário, mas um prodígio, e era corajoso. Não fora seu primeiro assalto.

- Passa a bolsa! - ele disse, enquanto apontava o revólver na direção da garota, que não era mais velha do que ele.

O velho trabuco tinha anos de uso e mais parecia um ferro-velho. Nem dava mais tanto medo, parecia peça sem uso. Mas a moça, que era de classe, se espantou. Assim que ela se virou, Marcos pôde ver seus lindos olhos que logo o encantaram. Ela tinha uma leveza e boniteza nos modos, mesmo assustada perante a realização do crime. A sua expressão de terror, mesmo realçando os traços grossos de seu rosto, ainda conseguiram conquistar Marcos.

Porém, mesmo sob o efeito do amor à primeira vista, Marcos não hesitou em concluir seu plano maléfico. Tomou a bolsa da moça e foi embora. Antes de ir, entretanto, uma rápida consideração cruzou o consciente do bandido: e seu roubar um beijo de minha vítima? Contudo, não o fez. Pensamento bobo. Acelerou e saiu dali o mais rápido possível. A ideia de ser pego pela polícia fazia cada fibra de seu corpo tremer. Já não era menor de idade e não gostava da ideia de ir para a cadeia.

Mas uma coisa era certeza: apaixonara-se.

Não viu a moça mais. Seu coração, todavia, era dela. Marcos tinha roubado da moça e ela roubado dele. Ladrão rouba ladrão. O que faria? Não parava mais de pensar nela. Voltou para casa, isto é, uma moradia aos pedaços que ficava nos subúrbios. Habitava uma parte pobre e escura da cidade, terra de bandidos como ele. Assim era a vida. E enquanto voltava ao seu lar, fantasiou mil e uma cenas, recriando incontavelmente os eventos de mais cedo enquanto assaltava aquela senhorita. Infelizmente, a única memória que tinha dela consistia de um semblante de medo. Não gostava de pensar naquilo. Fez mudanças quanto a sua cara. Imaginou-a rindo; não conseguiu.

Marcos tinha que fazer algo. Precisava revê-la. A primeira coisa que pensou foi em verificar sua identidade pelo celular roubado. Era bloqueado. Tinha que vendê-lo de qualquer forma. Precisava do dinheiro. O que um ladrão apaixonado poderia fazer? Foi na mesma rua que a assaltara nos dias seguintes, mas nunca mais a viu. Passou muito tempo rodado pelas ruas próximas do ocorrido pateticamente procurando por ela. Nada. Já não pensava mais na vida criminosa a qual tanto dedicava tempo e energia. Só pensava em coisas boas, puras. Com o passar dos dias, pode sentir o seu coração canalizar emoções positivas. Para ele não havia dúvida: estava sob o efeito do amor. Fora picado e o veneno já chegara à sua alma. Sentia-se grato por aquilo, grato pelo amor que sentia. Queria retribuir todas aquelas emoções, todo aquele amor. Marcos queria vê-la mais do que qualquer coisa. Queria tê-la em seus braços, beijá-la, dizer quanto a amava. Era um bandido com muito amor para dar.

Contudo, não conseguia parar de pensar em certos cenários como o de uma possível rejeição por parte dela ou de um amor impossível. Afinal, tratave-se de um reles assaltante, um habitante das mais escusas vielas da cidade, um filho do lado negro da sociedade, um marginal sem futuro. Ela, por outro lado, era talvez uma médica ou algo parecido, uma excepcional membra da sociedade em pleno exercício de suas funções como cidadã, orgulhosa de si e virtuosa. Como poderia terminar bem essa história? Tais considerações mantinham-no acordava durante a noite. Mas mesmo com tantos pesadelos envolvendo uma paixão distante e fria, havia sonhos doces em que se imagina vivendo entre seus seios, provando de seu beijo e cheirando a fragrância que cobria o seu ser. Tais sonhos faziam-no acordar com um largo sorriso no rosto. Marcos não desistiria fácil.

Mirabolou, então, uma ideia que beirava o ridículo. Mas não tinha tempo para discriminar o normal do absurdo. Tinha um plano. Iria atrair a atenção e então, talvez, ela aparecesse para ele. Certo dia, saiu de casa com um revólver em sua mão. Era o mesmo velho trabuco. Chegou a pensar em jogá-lo fora, não gostava de lembrar-se da memória em que ameaçava aquela anjo de mulher com tal grotesca tecnologia. Não precisaria usá-lo. Bastava chamar a atenção de algum policial que circulava em local pública. Chegou perto de um guarda e apontou para ele. Foi simples assim. Foi imediata a reação do oficial, que logo sacou a sua e pôs Marco no chão. Foi rápido.. No minuto seguinte já estava na viatura indo à delegacia com um sorriso no rosto.

As câmeras logo vieram. A melhor ideia que Marcos já tivera. Estava dando certo. Um repórter de algum programa policial chegou perto dele e foi fazendo perguntas. Marcos, muito empolgado, foi respondendo cada uma e fazendo questão de adicionar sua mais importante mensagem enquanto olhava para a câmera:

- Eu fiz isso por você... não sei quem você é... nem lembro o seu nome. Mas um coisa é certa: estou apaixonado por você. Se você está assistindo isso, meu amor, espero que se lembre de mim, o bandido que roubou sua bolsa outro dia...

Aquela entrevista, depois que foi ao ver, virou um sucesso instantâneo na internet e em redes sociais. Marcos ganhara a fama de bandido apaixonado. Acabou, como era de esperar, na cadeia. Mas sua família, distante mas ainda assistente quando necessário, havia conseguido um advogado para o rapaz e tinha esperanças de tirá-lo daquela condição. Iria apelar para o verdadeiro motivo por trás da ameaça contra o policial: chamar a atenção. Talvez convenceriam o juiz de que ele não estava em pleno exercício das faculdades mentais. Ou seja, enamorado.

Chegou o dia em que iria se encontrar com seu advogado. Não foi avisado, porém, que se tratava de uma advogada. Quando entrou na sala, viu, sentada à mesa, uma jovem de cabelos loiros e olhos lindos. Estava de terno e bem produzida, mas Marcos a reconheceu instantaneamente. Era aquela mesma pessoa que ele havia assaltado semanas atrás. A mesma proporção, os mesmos jeitos, o mesmo olhar, o mesmo ser.

Marcos a fitou profundamente.

Ela o fitou também.

- Olá, sou a doutora Carla. Sente-se, por favor. Deixa eu te tirar desse lugar.

O que se segue é uma história de bandido e princesa que é grande e espetacular demais para caber em um mero conto.

11 de novembro de 2019

Adão e Eva


Aquele foi, literalmente, o fim do Paraíso. Éden nunca mais. Dali em diante eles estariam sozinhos. Era o mundo e eles.

Eva ainda estava chocada com o que havia acontecido. Não teve onde esconder o rosto envergonhado. Por que fui comer aquela fruta, ela passou tempos pensando. E que cobra era aquela? E ficava pior quando pensava no que estava por vir. Gravidez? Ela não estava a fim de sofrer dores atrozes para conceber um filho. E por que tinham que conceber daquele jeito? Bastava tirar uma das costelas do parceiro como Deus fizera uma vez.

Adão estava com muita raiva de Eva. Enquanto viviam no Éden, Adão tinha uma mentalidade muito mais inocente. Não enxergava o ruim em Eva. Tudo era bom. Mas depois que Deus os apresentou à vergonha, tudo que era de ruim ficou claro. Ficou claro que a esposa (não gostava desse termo) era estúpida. Foi tola o suficiente para dar ouvidos a uma cobra falante, besta que nem ao menos constava nos planos divinos. Por causa dela, Adão perdeu tudo que tinha e já não era mais o mesmo homem virtuoso e puro como antes. Era primitivo, rude e até bárbaro. Uma sombra do que já foi. Assim era tudo para ele.

E tinham que sobreviver, a partir do dia em que foram expulsos, em uma terra seca e árida. Não havia verde como antes. Os animais, antes pacíficos, agora eram selvagens e procuravam matar o casal. Por isso, precisaram buscar abrigo primeiramente em uma caverna e depois em uma cabana mal feita que conseguiram erguer. A água era escassa, disponível apenas em algumas fontes isoladas e cercadas por ferozes competidores.

Assim seria a vida. O preço a pagar pelo pecado.

Passavam o dia sem se falar. Apenas sobreviviam. Não suportavam um ao outro. O pecado havia os transformado quase que em outras criaturas. Não eram mais os mesmos. Passaram a ser humanos. Palavra nova era aquela. Estranha. Sentiam-se quase que como diferentes entidades dentro do mapa divino. Tinham espírito e alma, disso sabiam, mas desde o dia em que foram expulsos tinham a sensação de estarem mais entrelaçados ao próprio chão em que pisavam, como que se fizessem parte dele. "Do pó viestes e ao pó retornarás". Eram fracos, mundanos, estúpidos e suas vidas, embora durassem muito mais do que a maioria das criaturas, eram frágeis.

Entretanto, havia algumas coisas boas. Dentre as novas descobertas estava o amor carnal. Com a criação da vergonha, foi necessário algo para cobrir suas partes íntimas e para protegê-los de outras adversidades como o frio. Devido à intensa convivência, o casal foi, entre desentendimentos, desenvolvendo uma ternura não vista antes na face da Terra. Suas vestimentas tornaram-se véus para segredos íntimos que aos poucos foram sendo desvendados. Deitaram-se incontáveis vezes e as palavras amor, afeto e tesão foram inventadas, algo inexistente no Éden. Porém, era um amor envolto em paixão, não era puro, apenas físico. Uma necessidade meramente humana de saciar os mais profundos desejos.

Quanto a Deus, este estava distante. Não sentiam a Sua presença. Parecia que não existia. Sabiam, na verdade, que Ele era real, mas ultimamente Seu Nome mais soava como uma ideia. Adão, certo dia, chegou a pensar que talvez Ele fosse uma invenção e que toda a vida que se lembravam te ter tido no Jardim fora uma ilusão ou um sonho extremamente realista que tiveram. Deus? Palavra curiosa, mas ainda carregada de poder.

Os dias passaram e Adão, ainda irado, começou a bolar um plano: e se matasse Eva? Tal mirabolância surgiu enquanto caçava em um campo perto de onde viviam. Adão era um bom caçador, chegava a pegar grandes e gordos animais. Lebres eram saborosas quando cozidas. Havia aves terrestres de peito farto que enchiam bem a barriga do casal. E Adão caçava com vontade, com vigor. Se lembrava de uma época em que considerava todas as criaturas da Terra como amigas, como companheiras. Agora agia com violência para com elas. Ou eram suas presas ou suas competidoras. Tinha sangue nos olhos enquanto corria atrás de algum javali com sua afiada lança. E como era bem afiada. Armas eram outro invenção pós-Éden. Tudo era brutal naquela nova época, principalmente para o homem que era mais voraz que a fêmea humana. Inclusive os pensamentos e as reflexões de Adão. A ideia de matar a parceira persistia. Tudo poderia voltar ao normal. Talvez existisse uma chance de retornar ao Paraíso e conseguir o perdão de Deus. Eva era um problema. O primeiro homem tinha saudades do Éden, saudades de um tempo em que era só ele e os animais.

Por muito tempo conjecturou o ato horrendo. Pensou em usar sua lança e dar um golpe fatal em Eva. Poderia se alimentar do corpo dela. Canibalismo era um termo que não existia e, portanto, não passava por nenhuma vistoria moral. Moral nem existia. Era só Adão, Eva e o mundo. Nada de outros humanos. Um plano perfeito, uma chance de redenção aos olhos do Criador.

Eva nem suspeitava. Sua rotina consistia em tomar conta do assentamento, isto é, uma cabana aos pedaços feita de galhos velhos de árvores. Haviam estabelecido-se perto de uma pequenina lagoa. Eram os donos dali. E era ali onde pretendiam ficar. Eva fazia a comida (o fogo, descoberta recente, ajudava bastante) enquanto o marido caçava. Com o tempo, a coitada foi sentindo-se cada vez mais solitária. A infelicidade surgira. A mulher começou a sofrer. Adão era autoritário, mal. Não a tratava bem e ela não se surpreendia em levar umas surras do terrível parceiro que Deus a dera. Sentia-se sozinha, como se não pertencesse àquele planeta, como se o mundo não fosse dela. Houve muitas noites que ela passou conversando com os astros, buscando um amigo no meio das estrelas. Adão chegou a chamá-la de louca uma vez, a primeira doida da História. Mas apesar de tudo, Eva persistia.

E então, um dia, sentiu enjoos. Vomitou muito, achou que a hora chegara para finalmente morrer. Mas aguentou por muito tempo. Quando deu conta, Eva tinha uma enorme barriga. Não tinha ideia do que estava acontecendo. Adão estava pasmo com aquilo. Nenhum dos dois se lembrava de Deus os ter contado sobre algo assim. Mas quando perceberam que o mesmo fenômeno acontecia a vários animais, ficou tudo claro. Eva seria mãe. Adão seria pai. A humanidade era a herdeira da Terra. "Crescei e multiplicai-vos".

Eva ficou assustada e também maravilhada. Pela primeira vez se sentia com alguém ao seu lado. Não estava mais sozinha. Teria um filho, uma outra pessoa para realmente fazer-lhe companhia. Por outro lado, estava com medo do que o futuro guardava para ela. A criança poderia nascer de qualquer jeito. Seria como eles ou pior? O que seria ensinado a ela? Menino ou menina? Quando tempo demoraria para crescer ou será que já sairia de seu ventre adulta?

Adão não gostou nada daquilo. Não queria uma terceira pessoa no seu pequeno mundo. Assim ele sentia-se: o dono de tudo. Será que teria que matar o bebê também? Não temia fazer isso, já tia pecado o bastante. Não temia punição de nenhum deus ou demônio. Quando a barriga de Eva já estava enorme, Adão decidiu sair para caçar e ficou dois dias fora sob a desculpa de ir procurar uma grande caça. Andou muito. Cruzou inúmeros riachos e conheceu terras verdes e belas. Pensou consigo que talvez não precisasse matar Eva e que talvez pudessem ser felizes juntos. Afinal, foi esta a finalidade que Deus tinha em mente quando a criou. Mas o mesmo espírito que habitava a Serpente ainda vagava pelo mundo e conseguiu tocar o coração de Adão. Viu vários bisões pastando sob um céu estrelado em sua frente e pensou: isso tudo é meu, é o meu mundo, minhas bestas, meu céu, meu planeta e minhas estrelas. Afiou sua lança e decidiu voltar para casa, decidido a matar sua esposa.

Quando voltou deparou-se não só com Eva, mas com um garotinho em seu colo. Era como Adão, mas bem pequeno. Tinha ombros curtos, olhos brilhantes e bochechas gordas. Eva, porém, não percebeu a chegada do marido e ficou a nanar a criança. Deitada em um leito de palha, seus cabelos eram como ramos de uma vinheira jogados sobre seu rosto cansado de mãe. Palavra nova: mãe. E foi a primeira.

Adão veio lentamente por trás já erguendo sua arma de caça pronto para desferir o golpe fatal. Foi aí que ele ouviu as palavras proclamadas por Eva, palavras que mudaram sua vida.

- Eu te amo. - Eva disse para o bebê.

O amor era uma das muitas palavras que os dois tinham aprendido. Mas Adão não entendia o que era aquilo que ela dizia para a criança. Era uma emoção nova que para o homem era desconhecida. Amor para ela era somente o coito intenso nas trevas. Como ela poderia amar um serzinho daqueles? Como era possível dedicar sua vida a uma criatura tão desprezível? Será que era algo que só as mulheres conheciam? Ou será que Deus tinha um plano para eles que ainda precisava ser descoberto envolvendo essa palavra?

De qualquer forma, Adão não filosofou muito. Sua emoção o dominou. Deixou cair sua lança. O que teve não foi exatamente pena, mas amor. Amor real. Tocou o ombro da amada esposa e a beijou na testa e então tomou a criança nos braços. Brincava de cutucá-la no nariz para a diversão do pequeno, que ria.

Adão conhecia seu lugar. Eva não estava mais sozinha. A primeira família.

- Como ele vai se chamar? - perguntou Adão.

- Cain – Eva respondeu. - É um lindo nome.

1 de novembro de 2019

O Terremoto

Tratava-se de uma reportagem que eu precisava escrever para o jornal onde trabalhava. Seria o meu primeiro grande feito como repórter, depois daquilo haveria uma matéria assinada com o meu nome. Então eu estava mais que empolgado. Além disso, não é todo dia que a gente visita um país do Caribe, nem que fosse o Haiti.

Portanto, como seria minha primeira grande reportagem, tinha a obrigação de torná-la marcante. Tinha que mostrar alguma coisa única e interessante sobre aquela nação tão pobre, algo que fosse memorável. Segundo os meus colegas de redação, uma de minhas qualidades é o meu "sexto sentido", uma capacidade que tenho de presumir que está há algo de errado. Pensei que tal habilidade pudesse ser útil em minha viagem.

Tive sorte assim que cheguei. Eu estava em Porto Príncipe, capital do Haiti, quando conheci Enzo. O jovem médico se mostrou entusiasmado em falar sobre sua estadia no país caribenho. Resolvi encontrá-lo em seu quarto de hotel no centro cidade. Estava lá para visitar seu pai, o embaixador e diplomata Carlos Gomes. Falou muito sobre este, ressaltando suas qualidades como grande dialogador. Porém, ficou claro para mim que havia um tom de negatividade em sua voz quando eu perguntei sobre a relação que tinha com o pai. O rapaz deu de ombros e disse que preferia não falar sobre aquilo.

- Ele sempre duvidou de minhas qualidades – Enzo disse – Por isso virei médico, para provar que sou capaz.

No momento em que concluía esta frase, o telefone tocou. Enzo, desculpando-se, levantou-se e foi atender. Tentei não escutar, mas ouvi uma parte da conversa que Enzo tentava manter em um tom baixo. Mas, em alguns momentos, por conta de explosões em sua voz, fui capaz de captar alguns trechos da diálogo. Parecia estar muito zangado com seu pai. Perguntava a ele coisas como "por quê?" e "qual é seu problema?". Enzo desligou o telefone furioso e também frustrado.

- Me desculpe – ele disse – Era meu pai. Queria saber como era nossa relação? Aí está!

Mas não me disse mais nada. Eu estava perguntando-me o porquê de investigar a vida particular daquele rapaz. Então, decidi continuar em minha jornada e pedi para que Enzo me desse uma carona até o hotel onde eu estava hospedado a alguns quilômetros dali. Ele, generosamente, concordou.

Durante a carona, Enzo me contou sobre alguns pontos importantes do centro. Falou-me da história de Porto Príncipe e do Haiti em geral, pareceu até que dirigimos por um século. Enzo se mostrou um bom rapaz e eu, durante toda a minha entrevista com ele, senti muita estima. Uma pena que tivesse uma relação tão ruim com o pai.

Quando o informei em que hotel eu havia me hospedado, ele espantou-se.

- Que coincidência! É onde meu pai está!

Chegamos à porta do hotel, que era consideravelmente menor que aquele onde Enzo se hospedara. Foi nesse instante, enquanto saíamos do carro, que começou. O meu "sexto sentido", motivo de tantos elogios que já recebi na redação, começou a ter efeito. Inicialmente, achei tratar-se de alguma construção ali perto. Porém, se intensificou e pude sentir os tremores sob os meus pés que então se espalharam por todo meu corpo. Olhei para Enzo e ele estava assustado.

- O que é isso? - eu perguntei.
- Acho que é um terremoto! - ele disse – Vamos para o meio da rua, estaremos mais seguros.

Quando nos demos conta, havia multidões apavoradas pelas ruas. Aparentemente, não era a primeira vez que testemunhavam aquele fenômeno. Eu já havia pesquisado e terremotos não eram novidade no Haiti.

Para o terror geral, os abalos sísmicos foram progressivamente intensificando-se. Chegou a um ponto em que podíamos ouvir o concreto dos prédios ranger. O asfalto comportava-se como uma onda. Nunca imaginei que chegaria a incluir tal evento na minha reportagem.

Quando olhei para Enzo, enxerguei desespero em seus olhos, um pavor que percebi não ser relacionado com o terremoto. Quando perguntei a ele o que se passava, ele olhou para o hotel em nossa frente. As paredes do edifício começaram a rachar. Várias pessoas saíam apavoradas. Logo cheguei a conclusão do que levava o jovem médico a estampar aquele semblante em seu rosto e me lembrei do que havia dito quando chegamos: seu pai estava lá dentro!

Mas antes de podermos fazer qualquer coisa, testemunhamos, para a nossa total aflição, o prédio sucumbir. Andar por andar o edifício veio abaixo. Enzo paralisou. Tive que tirá-lo dali antes que qualquer destroço atingisse-nos. Instalamos-nos atrás de um carro que estava estacionado do outro lado da rua, mas não conseguimos nos proteger da poeira que engoliu a tudo.

A rua ficou toda como que nublada, envolta por uma neblina cinzenta. Os tremores estavam cessando, mas o desespero apenas crescia. Os gritos das pessoas intensificavam-se.

Durante todo o desabamento eu mantive meus olhos fechados. Quando os abri, não encontrei Enzo. Levantei-me e olhei ao redor, a poeira se dissipava. Gritei seu nome e fui encontrá-lo em frente aos escombros, chorando.

- Pai! - ele dizia.

Não sabia o que dizer ou que fazer, eu estava tão chocado quanto ele. Imaginei o número de mortos somente naquele desabamento. Pelo resto da cidade deveria ter havido ainda mais fatalidades.

Aquele foi apenas o começo de um dia sombrio. Os bombeiros chegaram e começaram a procurar por sobreviventes. Enquanto isso, Enzo, ainda abalado, ligava incessantemente para o telefone do pai, mas ninguém atendia. Os bombeiros recomendavam manter distância, então tratamos de ficar na calçada de uma lanchonete no outro canto do quarteirão.

Mas Enzo não se inquietava. Tinha quase certeza do pior: seu pai estava morto. Fiquei extremamente sentido e abalado com a possibilidade daquele fato que, confesso, considerei. Olhei o jovem sentado naquela calçada e pensei como era triste saber que, caso seu pai estivesse realmente morto, eles nunca teriam a chance de fazer as pazes.

Mas, levantando-se em um salto, Enzo enxugou as lágrimas e olhou para o edifício desabado onde já hospedara-se Carlos Gomes e, talvez por desespero, teve a ideia de procurar por si só o pai. Uma ideia tola.

- Se passarmos pelos bombeiros, nós chegaremos aos destroços. Eu vou procurá-lo, não peço que me siga! - ele disse.

Tive que acompanhá-lo, eu não podia deixá-lo. De qualquer modo, todo aquele infeliz desastre iria acabar nas páginas de meu jornal. Tivemos que dar a volta no quarteirão para então conseguir acesso aos escombros. Tivemos sorte que os bombeiros não nos viram. Fui testemunha de um homem que, ajoelhado, desesperadamente procurou por o que restara do pai, removendo pedra por pedra em busca de qualquer sinal. Ficamos minutos lá e eu já não aguentava mais a poeira que era bastante irritante. Eventualmente, fomos avistados por paramédicos e bombeiros que nos tiraram de lá. Enzo já não chorava, acho que naquele ponto ele já havia aceitado a morte do pai.

Quanto às capacidades do corpo de bombeiros e dos paramédicos haitianos, pude observar que eram pobres em recursos mas, em resposta à catástrofes como aquelas, faziam seu melhor para salvar o máximo de vidas. Nas redondezas foram armados vários barracos onde resolvemos ficar. Vimos, para meu contentamento e alívio, várias pessoas serem resgatadas com vida. Algumas nem estavam muito machucadas. Enzo viu, inclusive, conhecidos. Mas depois de uma hora não havia sinal do senhor Carlos Gomes.

Até que, finalmente, o chefe dos bombeiros informou-nos que um homem branco tinha sido achado nos escombros, possivelmente o pai de Enzo. O jovem médico saiu em disparada ao encontro do socorrido. Fui atrás, quase o perdi em meio a multidão. Chegando lá, tivemos a confirmação do pior.

- Pai! - Enzo gritou.

Não sabia se ficava feliz por ter o achado com vida ou desesperado por ter um andar todo em cima dele. Carlos havia sido encontrado em uma fissura entre os escombros. Os bombeiros que o acharam apenas ouviram seus gritos de socorro. Com a ajuda de lanternas foram capazes de iluminar a pequena "caverna" onde ele estava preso e enxergar o embaixador. Um dos socorristas que fora ao encontro de Carlos nos informou:

- Ele está sob uma parede, sob muito peso. É possível que alguma viga tenha o perfurado. Sinto muito, mas ele não tem muito tempo de vida. Já sangrou muito...

Aquelas informações agourentas apenas contribuíram para a crescente aflição de Enzo, que estava em prantos.

- Podem tirar ele de lá? - eu perguntei.
- Sim, mas como eu disse, ele já perdeu muito sangue. Não tem muito tempo de vida.

Novamente tivemos que nos afastar para permitir o trabalho dos profissionais. Vários homens adentraram nos escombros e, depois de uma hora e de muito esforço, vimos Carlos ser retirado de baixo do que restara do prédio pelos bombeiros. Estava deitado em uma maca e banhado em sangue . Não era a visão mais bonita, principalmente para um simples repórter que estava empolgado para conhecer um país tão diferente e que esperava ver o lado bom daquele lugar. Só podia imaginar o que passava pela cabeça de Enzo.

Foi levado para uma ambulância onde ficou por muito tempo sendo tratado por vários paramédicos. Não foi levado a um hospital, mas tratado ali mesmo. As ruas estavam muito movimentadas e não era considerado sensato entrar debaixo de um casa depois daqueles abalos.

O que Enzo mais queria era falar com Carlos. Por muito tempo nós dois só observamos de longe. O rapaz suava. Finalmente, depois de algum tempo, os paramédicos conseguiram estabilizar a saúde do seu pai. Fomos autorizados a falar com o socorrido.

Estava destruído. Não se parecia nada com o homem que eu via nos jornais. Sua camisa estava cheia de sangue e seus olhos mal se abriam. Seu pescoço estava coberto por aparatos. Não era de se surpreender para alguém que até pouco tempo tinha o peso de um andar sobre si. Parecia morto.

- Pai... - Enzo se aproximou – Pode me ouvir?!

Carlos tentou abrir os olhos e enxergar alguma coisa. Não conseguia, entretanto, mover a cabeça. Balbuciou alguma coisa, como uma criança treinando as primeiras palavras. Com o tempo foi conseguindo articular-se melhor e teve sucesso em falar com Enzo, ainda com dificuldades.

- Enzo... - Carlos disse – É você, filho?

Eu via tudo de um metro de distância. Não queria intrometer-me, mas não podia perder os detalhes daquela cena emocionante em meio a tanto caos. Eu já tinha algo para colocar no meu jornal, sem dúvida. E seria memorável.

Lembrei-me de ir pegar minha mochila que eu havia deixado no carro. Minha câmera estava lá dentro. Encontrei o carro todo amassado e tive de ser rápido para que ninguém me percebesse e me tirasse dali. Minha câmera estava intacta. Quando voltei à cena, achei Enzo sobre o pai.

- Desculpe por duvidar de você... - Carlos dizia para o filho – Sinto muito mesmo, Enzo...

Enquanto isso, eu tirava fotos. Seria a manchete principal.

- Eu te amo... - Carlos concluiu.

E então fechou os olhos. Enzo ainda chamou pelo pai, mas ele não respondeu. Tentou mover o cadáver do homem, mas nenhuma resposta. Teve que ser tirado de lá. Os paramédicos levaram Carlos para dentro da ambulância e por muitos minutos ficaram lá dentro. Eu tentei consolar Enzo, mas não havia o que acalmasse o jovem médico.

Um homem saiu da ambulância e se aproximou de nós anunciado o que eu já sabíamos: a morte de Carlos. Enzo desabou, ficou de joelhos e de olhos cerrados, molhados de lágrimas angustiadas. O pai se fora, um amor que ele não teve tempo de desfrutar senão nos últimos minutos de vida dele. Mais uma vez tentei confortá-lo, mas a dor era enorme. Não era possível para ele que tivesse perdido o pai antes mesmo de poder ter uma experiência verdadeira com ele, antes mesmo de poder dizer que o amava.

Saímos dali. Eu já não aguentava mais aquele lugar. Tinha sido um dia terrível, o pior de Enzo e, por muito tempo, o pior de minha carreira como jornalista. Passamos os dois dias seguintes em um abrigo no centro da cidade. O hotel onde eu Enzo estava hospedado não sofreu muito dano, mas tínhamos medo de um novo tremor. Eventualmente, retornamos.

No mesmo dia de nosso regresso ao hotel, aconteceu o funeral de Carlos. Faltou muito para honrar aquele homem. Poucas pessoas além de mim e Enzo estavam presentes, colegas e poucos conhecidos, a família estava no Brasil. Três dias depois eu iria embora. Fora uma experiência única no país, mas eu já estava ficando traumatizado. Mas ainda queria ficar por mais algum tempo para dar apoio a Enzo, meu amigo do Haiti.

- Ele foi um bom homem – Enzo disse durante o funeral.
- Foi, claro. - eu respondi.
- O que você vai colocar na sua matéria? - ele perguntou. Me surpreendi com a pergunta, um tanto que inesperada.
- Vou falar sobre como um terremoto uniu, de forma infeliz, um pai e um filho.
- Coloque mais do que isso. Escreva que nem sempre quem te odeia faz isso por maldade. Por trás de muito ódio existe amor, muitas vezes parco, mas amor.
- Vou escrever.

Despedi-me de Enzo e retornei ao Rio com muito pesar no coração por tudo pelo que ele eu tínhamos passado. Não pensei em outra coisa a bordo do avião.

Quando cheguei em casa carregando uma tonelada de malas, fui recebido por dois lindos garotinhos: Carlos e Enzo. Como estavam crescidos. Agarrei-os como nunca tinha agarrado antes. Minha mulher logo apareceu, correndo da cozinha. Beijei-a como se fosse a primeira vez. Estavamos nós quatro no meio do corredor, uma família que eu não queria perder.

- Como foi? Fiquei tão preocupada, amor – minha esposa disse – E quanto a sua matéria? Ainda vai escrevê-la?
- Sim – eu disse - É a história mais emocionante de todas.