Foi o que eu disse depois de
jogar aquele monte de folhas na mesa do meu editor. Ele olhou com um
cara de surpresa como se não esperasse que eu terminasse o livro.
- Está do tamanho que
pedi? - ele perguntou.
- Sim. - respondi.
Disse que iria ler as
primeiras páginas mais tarde naquele dia. Era um homem duro e seco,
sua editora não tolerava romances cafonas e genéricos. O meu livro
tinha que ser especial.
Me ligou dois dias depois. Falou
sobre o que achou do livro: um monte de bosta. Disse que eu não
tinha criatividade e que a história que eu havia escrito não tinha
emoção, só um monte de palavras amontoadas. Disse que não
publicaria meu livro e que eu teria que escrever outro do zero.
Desliguei o telefone com
raiva e fui dormir furioso. Não aguentava mais ser comparado a
alguém sem talento. Era o que meu editor dizia, o que minha esposa e
meus amigos diziam. Afinal, qual seria o segredo de um bom escritor?
Como fazer para entreter meus leitores?
No dia seguinte eu me pus a
começar (de novo) o meu livro. Me sentei em minha mesa e abri o
notebook. Lá estava a página, ainda em branco. Por muito tempo a
encarei, perguntando com o que ela gostaria de ser preenchida. Que tipo
de história quer que eu coloque em você, eu perguntava.
Mas, como era tarde, logo
adormeci ali mesmo.
O que aconteceu naquela
noite, durante o meu sono, foi algo extraordinário. Talvez tenha
sido a responta do meu subconsciente à pergunta que fiz mais cedo: como ser um bom escritor?. Intervenção sobrenatural?
Não sei, mas acordei diferente.
No meu sonho eu me
encontrava em uma sala ou lugar completamente branco. Se haviam
paredes, elas eram totalmente alvas, assim como as folhas de um papel
em branco. Caminhei solitário e pensativo por um tempo.
Parecia a vida real: tentando achar ideias para um bom livro. O que
seria? O que agradaria aos meus leitores? Horror? Policial? Suspense?
Fantasia?
Enquanto me fazia essas
perguntas eu fui surpreendido pela voz de alguém vindo de trás de
mim. Me virei e lá estava, para meu espanto, um homem velho. Parecia
ter cem anos, barbudo e segurando uma bengala. Estava sentado sobre um
banquinho que não estava lá antes.
- Quem é o senhor? - eu
perguntei.
- Eu sou quem você estava
procurando. - ele disse com uma voz gentil – Eu sou a História!
- Como assim?
- Ora, eu sou o filho da
Imaginação!
Coçei a cabeça. Eu estava
naturalmente confuso. O velho então estendeu a mão para o seu lado
e do nada surgiu um banquinho onde eu pude me sentar e raciocinar
melhor aquilo tudo.
- E o que o senhor está
fazendo aqui, neste deserto? - eu disse.
- Este deserto é a sua
mente! Eu vivo nela e sou fruto de tudo que você conhece. Não
parece, mas eu sou muito mais poderoso do que você acha.
E então a História mais
uma vez fez um gesto com a mão e surgiu, em nossa frente, uma
paisagem composta por um rio, uma floresta e uma montanha e um campo
verde. E então apareceu um enorme dragão vermelho que cobriu o céu.
De repente, nós dois estávamos no meio daquele novo cenário. O
velho continuou a gesticular, dessa vez com a ajuda de sua bengala
(ou melhor, cajado) e apareceram cavaleiros erguendo espadas e feiticeiro malignos que tramavam magias negras no alto de enormes castelos.
Em um instante o cenário
mudou mais uma vez. Tudo escureceu. Haviam agora túmulos por todo
lugar. Mãos ossudas começaram a sair de dentro da terra e percebi
que estava em uma história de terror. O sonho quase virou um
pesadelo até cenário mudar mais uma vez. Agora estávamos em um
navio pirata. E continuou mudando, passando por naves espaciais até
tribos primitivas em planetas alienígenas.
O velho concluiu a
apresentação com um gesto brusco e tudo voltou a ser um vazio
branco. Eu estava maravilhado com tudo aquilo. Olhei para ele e
disse:
- Uau! Isso é incrível. Eu
queria ter tanta imaginação assim.
- Você tem – História
disse – Está dentro de você. O importante é ter um ideia e ter
paciência, deixe o peixe fisgar a isca.
Bateu o cajado no chão e
fez uma pequena lagoa aparecer em nossa frente. Tinha agora uma vara
de pescar em mãos e a jogou na água.
- Seja um pescador e colete
seu fruto deste mar que é sua imaginação. A isca é como uma ideia
e você precisa esperar que o peixe a morda!
Fiquei pensando naquilo
olhando para o vazio que mais uma vez se abriu em minha frente. Coçei
o queixo.
- É, só preciso de uma
ideia. Mas qual?
- Elas aparecem! - o
simpático velho disse, sorrindo.
Se levantou e saiu andando
devagar. Abriu um portal em sua frente que dava para um bosque verde
e abundante, um legítimo cenário de fantasia medieval. O observei partir e então acordei.
Quando despertei eu percebi
que havia dormido sobre a minha mesa de trabalho. Mas minha mente
estava clara: não era eu quem escrevia a História, era a História
que escrevia a si mesma! Eu tinha que jogá-la no papel e então
deixá-la crescer, como uma árvore.
Eu só precisava de um
ideia! Mas qual? Me lembrei que tinha um caderno com várias
anotadas. O vasculhei, mas nada me agradou. Eram só sinopses pouco
interessantes. Eu precisava de algo simples, único e incrível.
E então algo passou pela
minha mente, uma lembrança de meu sonho! É isso, eu pensei. Seria o
começo de uma grande História.
Comecei a digitar no
computador:
"Era uma vez um mago
que lutava usando a sua imaginação"
Meu
editor vai adorar.
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