2 de outubro de 2019

O Mago

- Terminei.

Foi o que eu disse depois de jogar aquele monte de folhas na mesa do meu editor. Ele olhou com um cara de surpresa como se não esperasse que eu terminasse o livro.

- Está do tamanho que pedi? - ele perguntou.
- Sim. - respondi.

Disse que iria ler as primeiras páginas mais tarde naquele dia. Era um homem duro e seco, sua editora não tolerava romances cafonas e genéricos. O meu livro tinha que ser especial.

Me ligou dois dias depois. Falou sobre o que achou do livro: um monte de bosta. Disse que eu não tinha criatividade e que a história que eu havia escrito não tinha emoção, só um monte de palavras amontoadas. Disse que não publicaria meu livro e que eu teria que escrever outro do zero.

Desliguei o telefone com raiva e fui dormir furioso. Não aguentava mais ser comparado a alguém sem talento. Era o que meu editor dizia, o que minha esposa e meus amigos diziam. Afinal, qual seria o segredo de um bom escritor? Como fazer para entreter meus leitores?

No dia seguinte eu me pus a começar (de novo) o meu livro. Me sentei em minha mesa e abri o notebook. Lá estava a página, ainda em branco. Por muito tempo a encarei, perguntando com o que ela gostaria de ser preenchida. Que tipo de história quer que eu coloque em você, eu perguntava.

Mas, como era tarde, logo adormeci ali mesmo.

O que aconteceu naquela noite, durante o meu sono, foi algo extraordinário. Talvez tenha sido a responta do meu subconsciente à pergunta que fiz mais cedo: como ser um bom escritor?. Intervenção sobrenatural? Não sei, mas acordei diferente.

No meu sonho eu me encontrava em uma sala ou lugar completamente branco. Se haviam paredes, elas eram totalmente alvas, assim como as folhas de um papel em branco. Caminhei solitário e pensativo por um tempo. Parecia a vida real: tentando achar ideias para um bom livro. O que seria? O que agradaria aos meus leitores? Horror? Policial? Suspense? Fantasia?

Enquanto me fazia essas perguntas eu fui surpreendido pela voz de alguém vindo de trás de mim. Me virei e lá estava, para meu espanto, um homem velho. Parecia ter cem anos, barbudo e segurando uma bengala. Estava sentado sobre um banquinho que não estava lá antes.

- Quem é o senhor? - eu perguntei.
- Eu sou quem você estava procurando. - ele disse com uma voz gentil – Eu sou a História!
- Como assim?
- Ora, eu sou o filho da Imaginação!

Coçei a cabeça. Eu estava naturalmente confuso. O velho então estendeu a mão para o seu lado e do nada surgiu um banquinho onde eu pude me sentar e raciocinar melhor aquilo tudo.

- E o que o senhor está fazendo aqui, neste deserto? - eu disse.
- Este deserto é a sua mente! Eu vivo nela e sou fruto de tudo que você conhece. Não parece, mas eu sou muito mais poderoso do que você acha.

E então a História mais uma vez fez um gesto com a mão e surgiu, em nossa frente, uma paisagem composta por um rio, uma floresta e uma montanha e um campo verde. E então apareceu um enorme dragão vermelho que cobriu o céu. De repente, nós dois estávamos no meio daquele novo cenário. O velho continuou a gesticular, dessa vez com a ajuda de sua bengala (ou melhor, cajado) e apareceram cavaleiros erguendo espadas e feiticeiro malignos que tramavam magias negras no alto de enormes castelos.

Em um instante o cenário mudou mais uma vez. Tudo escureceu. Haviam agora túmulos por todo lugar. Mãos ossudas começaram a sair de dentro da terra e percebi que estava em uma história de terror. O sonho quase virou um pesadelo até cenário mudar mais uma vez. Agora estávamos em um navio pirata. E continuou mudando, passando por naves espaciais até tribos primitivas em planetas alienígenas.

O velho concluiu a apresentação com um gesto brusco e tudo voltou a ser um vazio branco. Eu estava maravilhado com tudo aquilo. Olhei para ele e disse:

- Uau! Isso é incrível. Eu queria ter tanta imaginação assim.
- Você tem – História disse – Está dentro de você. O importante é ter um ideia e ter paciência, deixe o peixe fisgar a isca.

Bateu o cajado no chão e fez uma pequena lagoa aparecer em nossa frente. Tinha agora uma vara de pescar em mãos e a jogou na água.

- Seja um pescador e colete seu fruto deste mar que é sua imaginação. A isca é como uma ideia e você precisa esperar que o peixe a morda!

Fiquei pensando naquilo olhando para o vazio que mais uma vez se abriu em minha frente. Coçei o queixo.

- É, só preciso de uma ideia. Mas qual?
- Elas aparecem! - o simpático velho disse, sorrindo.

Se levantou e saiu andando devagar. Abriu um portal em sua frente que dava para um bosque verde e abundante, um legítimo cenário de fantasia medieval. O observei partir e então acordei.

Quando despertei eu percebi que havia dormido sobre a minha mesa de trabalho. Mas minha mente estava clara: não era eu quem escrevia a História, era a História que escrevia a si mesma! Eu tinha que jogá-la no papel e então deixá-la crescer, como uma árvore.

Eu só precisava de um ideia! Mas qual? Me lembrei que tinha um caderno com várias anotadas. O vasculhei, mas nada me agradou. Eram só sinopses pouco interessantes. Eu precisava de algo simples, único e incrível.

E então algo passou pela minha mente, uma lembrança de meu sonho! É isso, eu pensei. Seria o começo de uma grande História.

Comecei a digitar no computador:

"Era uma vez um mago que lutava usando a sua imaginação"

Meu editor vai adorar.

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