Renan pôs a mão na
bochecha. Um dos seus molares doía fazia uma semana, uma dor quase
insuportável. O pior era o barulho da maquininha do dentista que não
acalmava em nada os pobres coitados na sala de espera.
Eram quatro. Renan era o que
tinha mais medo de dentista. Lembra-se da primeira vez que foi quando
ainda era garoto e de como ficou traumatizado com a agulha. Desde
então tem cuidado bem da saúde bocal, mas mesmo assim conseguiu uma
cárie. Outro era uma mulher de uns quarenta anos que tinha trazido o
filho. Renan observou como estava aflita a criança, coitadinha. Ao
lado da mulher havia um homem barbudo e que usava um estranho chapéu.
Renan achou seus jeitos muito peculiares. Além desses, tinha outro
homem sentado no canto, lendo uma revista com uma expressão séria.
O silêncio reinava,
interrompido de vez em quando pela maquininha.
- Mãe... - o garoto disse.
- Não dói, filho – a mãe
respondeu.
Renan fechou os olhos. Em
momentos como esse, aprendera que devia buscar ajuda interior. Nunca
foi uma pessoa religiosa. Quando cresceu, resolveu se afastar desse
meio (crescera entre católicos) e abraçar o freethought. Mas
havia situações que sua mente cutucava a Renan e lhe mandava pedir
socorro a alguma divindade ou força superior. Renan acreditava ser
instinto humano.
Renan
abriu os olhos e viu o menininho com as palmas coladas, quase riu,
achou cômico.
- Não
reze em vão, menino. - a mãe disse.
- Rezar
ou não rezar... não adianta nada. - o homem no canto que lia uma
revista interrompeu.
-
Besteira. - a mulher disse baixinho.
-
Besteira? - o homem continuou – Diga isso às vítimas de
desastres!
Renan
colocou a mão na testa. Lá vamos nós, ele pensou. Uma discussão
teológica havia se iniciado e ele só estava preocupado com o
tamanho da agulha que o esperava.
-
Como é que você pode viver
sem Deus? - a mulher continuava.
- Bem,
sou ateu e aqui estou! - o homem respondia.
- Vocês
discutem e discutem mas a verdade é que são todos infiéis – o
homem do chapéu peculiar de repente falou, era na verdade um
muçulmano – Só existe um Deus.
- Eu sei
e acredito nisso – a mulher disse.
- Vocês
cristãos na verdade creem em três deuses e só fingem acreditar em
um. É ridículo. Jesus não é Deus, é um profeta somente!
A
discussão continuava. Um lado atacava a qualidade do deus de um, o
outro lado atacava a falta de fé do outro. Era uma guerra, na
verdade. Renan olhou para o garotinho e o viu ainda rezando,
dessa vez com mais intensidade, falando mil rezas por segundo.
De
repente, todo o barulho cessou quando a porta se abriu e de dentro do
consultório (ou sala de operações, para os mais temerosos) saiu um
rapaz com um lenço sobre a boca, expressão de dor.
-
Lembre-se de cuidar dos dentes daqui em diante! - o dentista disse,
logo atrás – Muito bem, quem é o próximo?
Todos
na sala de espera se entreolharam, estavam
mudos, e
então o homem ateu se levantou e entrou na sala para sua realizar
sua extração.
Renan
observou claramente o semblante no rosto do ateu antes de entrar na
sala. Era medo.
Assim
que a porta se fechou, a mulher olhou para o garotinho e disse:
- Vamos
rezar, filho, vamos rezar.
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