29 de fevereiro de 2020

Dor de Dente


Renan pôs a mão na bochecha. Um dos seus molares doía fazia uma semana, uma dor quase insuportável. O pior era o barulho da maquininha do dentista que não acalmava em nada os pobres coitados na sala de espera.

Eram quatro. Renan era o que tinha mais medo de dentista. Lembra-se da primeira vez que foi quando ainda era garoto e de como ficou traumatizado com a agulha. Desde então tem cuidado bem da saúde bocal, mas mesmo assim conseguiu uma cárie. Outro era uma mulher de uns quarenta anos que tinha trazido o filho. Renan observou como estava aflita a criança, coitadinha. Ao lado da mulher havia um homem barbudo e que usava um estranho chapéu. Renan achou seus jeitos muito peculiares. Além desses, tinha outro homem sentado no canto, lendo uma revista com uma expressão séria.

O silêncio reinava, interrompido de vez em quando pela maquininha.

- Mãe... - o garoto disse.

- Não dói, filho – a mãe respondeu.

Renan fechou os olhos. Em momentos como esse, aprendera que devia buscar ajuda interior. Nunca foi uma pessoa religiosa. Quando cresceu, resolveu se afastar desse meio (crescera entre católicos) e abraçar o freethought. Mas havia situações que sua mente cutucava a Renan e lhe mandava pedir socorro a alguma divindade ou força superior. Renan acreditava ser instinto humano.

Renan abriu os olhos e viu o menininho com as palmas coladas, quase riu, achou cômico.

- Não reze em vão, menino. - a mãe disse.

- Rezar ou não rezar... não adianta nada. - o homem no canto que lia uma revista interrompeu.

- Besteira. - a mulher disse baixinho.

- Besteira? - o homem continuou – Diga isso às vítimas de desastres!

Renan colocou a mão na testa. Lá vamos nós, ele pensou. Uma discussão teológica havia se iniciado e ele só estava preocupado com o tamanho da agulha que o esperava.

- Como é que você pode viver sem Deus? - a mulher continuava.

- Bem, sou ateu e aqui estou! - o homem respondia.

- Vocês discutem e discutem mas a verdade é que são todos infiéis – o homem do chapéu peculiar de repente falou, era na verdade um muçulmano – Só existe um Deus.

- Eu sei e acredito nisso – a mulher disse.

- Vocês cristãos na verdade creem em três deuses e só fingem acreditar em um. É ridículo. Jesus não é Deus, é um profeta somente!

A discussão continuava. Um lado atacava a qualidade do deus de um, o outro lado atacava a falta de fé do outro. Era uma guerra, na verdade. Renan olhou para o garotinho e o viu ainda rezando, dessa vez com mais intensidade, falando mil rezas por segundo.

De repente, todo o barulho cessou quando a porta se abriu e de dentro do consultório (ou sala de operações, para os mais temerosos) saiu um rapaz com um lenço sobre a boca, expressão de dor.

- Lembre-se de cuidar dos dentes daqui em diante! - o dentista disse, logo atrás – Muito bem, quem é o próximo?

Todos na sala de espera se entreolharam, estavam mudos, e então o homem ateu se levantou e entrou na sala para sua realizar sua extração.

Renan observou claramente o semblante no rosto do ateu antes de entrar na sala. Era medo.

Assim que a porta se fechou, a mulher olhou para o garotinho e disse:

- Vamos rezar, filho, vamos rezar.


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