8 de abril de 2016

A Espada Altiva

O ferreiro Rufus, de Emb,  forjara uma bela espada, não tão grande como as dos cavaleiros, mas  ainda assim mortal. Seu cabo era negro como a noite mais escura, e sua lâmina era reluzente como as asas dos anjos do paraíso.
- Este espada que agora forjei com meu suor e minha força se chamará a Altiva - disse Rufus erguendo a arma. E assim ela foi chamada.
Rufus a deu ao seu filho, Jacques, que estava para se juntar ao exército do rei.
- Tome esta espada que eu forjei, meu Jacques - disse Rufus - seu nome é Altiva, e ela terá fama entre os grizacs.
E aconteceu que Jacques  amou Altiva, pois além de sua beleza e alegância, ela lhe dava muita coragem e força. Foi para a guerra no dia seguinte, e não voltou mais. Pois a batalha que ocorrera mais ao oeste foi muito terrível, muitos homens do Reino de Emb morreram. Houve triunfo para os grizacs.
Assim morreu Jacques, que ainda era jovem e nem tinha completado seus vinte anos. Rufus chorou muito ao receber a mensagem.
Jacques estava morto, mas a Altiva continuava. Ela ainda brilhava no campo de batalha como uma chama branca, brilhando na noite, ao lado do cadáver de Jacques.
Pois esta estória é muito antiga, e muito tempo então se passou. Reis morreram e nasceram, muito sangue caiu em outras guerras, o mundo mudou. O campo onde Jacques morrera havia se tornado uma mata bem fechada e escura. As árvores cresceram, levantando os mortos. Assim ficou conhecida como a Floresta dos Mortos.
E lá ficou Altiva, intocada. Ficou lá sem ver um homem por mais de cem anos, aquela  região era muito desabitada, poucos ali apareciam.
Um dia, mais ao norte perto das Montanhas Alvas, uma casa foi invadida por grizacs. Ali morava apenas um pobre homem chamado Edgardo e sua mulher doente, Aba. Os grizacs, como eram cruéis, mataram Aba, e Edgardo, com muito medo no coração, fugiu para o sul.
Ele chegou até a Floresta dos Mortos, onde ali sentou de noite e chorou muito, pois sabia que os grizacs logo iriam encontrá-lo e matá-lo.
- Pobre de mim! Pobre Aba! - ele dizia - mataram ela e agora vão me achar! Só um deus pode me ajudar agora.
Ele continuou chorando até ouvir, ao seu lado, uma voz clara e limpa. A voz dizia algo que Edgardo não entendia. Então ele se aproximou e viu que era uma espada, jogada ali no chão logo atrás da árvore.
- Pobre homem, por que você chora? - disse a espada, brlhando como a lua.
Edgardo achou que estava sonhando, algum pesadelo, pois coisas muitos terríveis e estranhas tinham e estavam acontecendo naquele dia. Mas quando ouviu a voz, não imaginou que vinha da espada.
- Quem... quem é? - Edgardo perguntou.
- Meu nome é Jacques - respondeu a espada - como fui morto em uma guerra do passado, minha alma ficou presa a esta espada, que pertencia ao meu pai, Rufus.
Edgardo esfregava os olhos.
- Eu não entendo, meu Deus - ele disse - este é o pior dia de todos! Nesta manhã, grizacs atacaram minha casa e levaram minha mulher, Aba, que era doente. Eu fugi e cheguei até aqui, nesta mata escura e triste e agora converso com uma espada! Será que estou morto?
- Não, meu amigo - Jacques, como um espírito dentro de Altiva, disse - quem está morto sou eu, que levei um golpe na garganta e caí como uma pedra no chão. Como eu amava muito a minha espada, forjada por meu pai, minha alma ficou presa nesta arma. Você não tem ideia quanto tempo faz que eu não vejo um homem vivo tão perto assim!
- Mas agora nada me importa! Minha mulher está morto, e os grizacs me encontarão. É uma questão de tempo!
- Não me vê aqui? - disse Jacques - Sou uma espada. Use-me! Vingue-se!
- Não sei se posso fazê-lo! Sou um homem fraco e minha coragem é pouco. Além disso, são muitos grizacs.
- Mas você terá coragem, meu amigo. Empunhe-me!
Então Edgardo, levantando-se, ainda fraco e cheio de lágrimas, se dirigiu até a espada brilhante e levantou do chão, empunhando-a. Jacques brilhou ainda mais, e Edgardo sentiu seu espírito renovado. Criou mais coragem e sentiu ódio contra os grizacs, ao invés do medo.
- Viu, meu bom homem? - disse Jacques - Agora está disposto a viajar até sua casa e vingar a morte de tua conjugê? Faça-o!
- Sim, eu o farei! Os grizacs não triunfarão!
E assim foi. Edgardo se alimentou em um riacho ali perto, ainda na floresta. Se alimentou de alguns frutos e então partiu para o norte, até sua casa.
Ali chegou, empunhando Altiva, a espada com o espírito de Jacques aprisionado, forjada por Rufus. Os grizacs ainda se alegravam com o cadáver de Aba, em uma cena terrível.
Mas Edgardo, sem lágrimas, se aproximou e gritou palavras de ordem. Os grizacs riam de escárnio. Um deles partiu para cima de Edgardo, mas este terminou sem a cabeça. Os outros, já zangadas, também tentaram atacar. Mas apenas tentaram.
Edgardo os matou com ódio. Mesmo depois de mortos, os grizacs tiveram seus corpos mutilados. O ultimo deles se encolheu numa parede e teve sua garganta perfurada, jorrando sangue escuro.
Edgardo, depois de ver aquela cena, caiu no chão e largou Jacques. Sua expressão de fúria foi substituida por desolação.
- O que foi, Edgardo? - perguntou Jacques - por que chora? Já vingou-se, alegre-se.
- Vingando-me ou não me vingando, minha esposa, Aba, continuaria morta. Estou derrotado.
Pegou a espada, reluzente, e enfiou no peito. Edgardo estava morto.

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