2 de outubro de 2019

Meu Amigo, Stalin


E se eu os contasse da época em que eu fui vizinho de Josef Stalin?

Essa história inacreditável aconteceu faz muitos anos. Eu havia me mudado para São Paulo e fui morar em um cortiço alugado, um quartinho barato nos fundos de um casa. Por muitos dias eu morei ali, sossegado, sem achar que me tornaria vizinho de um ditador comunista. Até que, numa manhã de segunda, ele chegou.

E não é que era a cara do líder soviético? O grosso bigode era o que mais se destacada em seu rosto volumoso. Era gordo e atarrancado, andava de um jeito devagar. Para deixar a história ainda mais cobulosa para vocês, leitores, lhes informo que ele falava com um sotaque carregado que só podia ter vindo, a partir do pouco conhecimento geográfico que eu tinha na época, do interior da Rússia!

Cumprimentei-o assim que chegou e ele lançou-me um olhar de desconfiança. 
Mas foi assim só no começo. Depois de uns dias eu estava tomando chá na casa dele (ao lado da minha).

Viramos bons amigos. Me dizia com convicção que era realmente o verdadeiro Stalin. Afirmava que tinha fugido da Rússia e agora vivia no Brasil pois "era mais quente". Ah, e também, claro, para fugir do perigo fascista que crescia na Europa.

Embora eu tenha pensado em ligar para o hospício para verificar se algum paciente havia fugido, logo joguei fora essa ideia. Tinha ali um bom vizinho. Stalin costumava cozinhar comidas típicas de seu país e batia na minha porta de noitinha para oferecer um pouco. Fomos para o cinema juntos uma vez, embora ele não tenha gostado da cultura capitalista. Preferia ficar em casa.

Todas as manhãs eu ouvia, da casa dele, o som do hino soviético tocando. Era religioso para Stalin, todos os dias. Louco ou não, ele passava por Stalin.

Mas então, um dia, enquanto conversava com ele na minha casa, o telefone tocou. Ele foi correndo até seu quarto alugado e começou a fazer as malas. Eu, sem saber o que estava acontecendo, perguntava:
- O que houve?
Mas só recebia respostas que não faziam sentido.
- Eles chegaram! Estão invadindo! Moscou está sob perigo! Preciso ir!

Fez suas malas e e em pouco tempo foi embora. Nem se despediu direito de mim. O dono do cortiço ficou tão perdido quanto eu, assim como o resto dos inquilinos.

Nunca mais o vi desde então. Tenho saudades de Stalin, meu amigo daquelas épocas. Enquanto escrevo isto sentado à minha mesa, eu estou olhando para um retrato ao meu lado de nós dois no dia que fomos à praia.

Me pergunto o que ele está fazendo hoje ou mesmo se ainda está vivo ou morreu durante alguma guerra imaginária. Vida longa ao líder.

Um comentário:

  1. Percebi que em nenhum momento é dito que o velho Stalin vai morar em um apartamento perto do narrador. Só é dito que "numa manhã de segunda, ele chegou." Eu achei que ele tinha ido prestar algum serviço no lugar, tipo checar os encanamentos. E dada a descrição do cara, não conseguir parar de imaginar ele como o Mario Bros.

    ResponderExcluir