Eu sou um comedor de sonhos. Não sou como vocês que enchem suas barrigas com carne e frutas e outros alimentos que julgam normais. Minha refeição é o que as suas mentes produzem durante o sono. Basta chegar perto de alguém dormindo e devorar suas ideias criadas pelo subconsciente. Para mim, os sonhos são como nuvens que se materializam sobre a cabeça de minhas presas.
Mas só me interessam os bons sonhos. Não devoro pesadelos. Têm gosto ruim! São como frutos podres, estragados. Sonhos são doces, derretem na boca, uma delícia. Os meus favoritos são aqueles que remetem à memórias de infância. Também gosto dos sensuais, embora alguns tenham um gosto um tanto que forte às vezes.
Mas até pouco tempo, nunca um sonho havia me tocado tanto quanto o de Ana, ou Aninha, como a chamam. É uma menina de seis anos, filha única, bom coração. Infelizmente ela vive em um ambiente caótico, com dois pais disfuncionais que vivem brigando. Os sonhos de crianças são sempre muito saborosos, mas o de Aninha são únicos. Céu azul, sol claro, sons e figuras agradáveis. Esses são os cenários de seus sonhos que mais parecem um paraíso que a pequena usa para fugir da família disfuncional em que vive.
Toda noite eu vou na casa dela. Subo no telhado e começo a devorar seus lindos sonhos coloridos que sobem atravessando o teto.
Mas às vezes me emociono ao ver tamanha inocência se materializando daquele jeito. Fico triste por um dia aquilo tudo ter que acabar, pois conforme as pessoas crescem, os sonhos vão ficando cada vez mais amargos e salgados ou mesmo sem gosto e os pesadelos vão ficando mais sombrios.
Fico triste, principalmente, ao saber que nunca viverei o mundo criado pela garotinha Aninha. Afinal, sou só um monstro feio que devora o subconsciente dos humanos. Essa é minha natureza da qual não posso escapar pois afinal não posso sonhar como Aninha.
Toda noite quando vou dormir sob uma ponte velha ou em um beco escuro eu fecho os olhos e tento fazer como Aninha: sonhar.
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