Foi a única resposta dela.
Acabou ali naquele restaurante, nosso namoro de um ano já era. E em pensar que eu já amei aquela menina do fundo do coração. Depois de
tudo que passamos a resposta dela foi somente "hum" na
frente de tantas pessoas. Para mim soou como um murmúrio quase
animalesco, algo que eu ouviria de um suíno ou outro animal. Por
isso senti um tanto que raiva naquele pequeno momento em que ela
emitiu aquele som e deu as costas para mim, sem contar com o fato de
eu ter armado toda aquela cena bonita em um estabelecimento tão
chique só pra receber tal resposta. Fiquei imaginando ela com orelhas
de burro e nariz de porco e vestindo uma larga camiseta com os
dizeres "sou uma idiota".
Eu não me considerava um
idiota. Mesmo depois de tudo que ela me acusou, mesmo depois de todos
os "você não me valoriza" e "qual é seu problema?".
Mas será que eu era mesmo um idiota? Comecei a me perguntar isso não
depois de horas de reflexão sobre minha ex, mas sim depois de receber
aquele misterioso e-mail.
Estava na frente de meu PC
ajeitando uns trabalhos quando ouvi o barulho. Uma notificação. O
remetente era "clubedosidiotas@email.com".
No texto que descrevia o assunto da mensagem dizia: "você é um
idiota?". Uma pergunta que me deixou bolado principalmente
depois do que tinha acontecido mais cedo no restaurante.
Havia um texto e dois
botões, além de uma imagem de um asno. O texto do e-mail dizia:
Olá. Somos um clube
composto por homens e mulheres de diversas faixas etárias e de
diversas classes sociais que estão cansados do julgamento da
sociedade. Estamos fartos de apelidos como"idiota",
"babaca" e "imbecil". Por isso
decidimos criar o nosso pequeno mundo onde podemos, enfim, remover nossas
mascaras e agir da maneira mais estúpida possível.
Observamos que você se
encaixa no nosso perfil. Você é um idiota? Há dois botões abaixo,
se clicar no verde você estará respondendo este e-mail com uma
mensagem afirmativa, caso clique no vermelho negará nosso convite e
voltará a ser um idiota enrustido.
Ponderei muito antes de enviar minha resposta. Será que eu era
idiota? Primeiramente pensei em negar o convite. Quem quer que
tivesse enviado aquele e-mail só podia querendo me insultar e tirar uma
com minha cara. Idiota? Eu? Minha mãe não criou um idiota. E então
eu pensei na minha namorada, digo, ex-namorada e pensei no jeito que ela
olhava para mim no fim de nosso relacionamento e como eu tratava ela
(como um idiota) e pensei também, claro, no "hum" que ela
me deu, quase um coice. Basicamente eu pensei em toda a minha vida e
nos momentos em que errei, os momentos em que fui idiota.
Era eu um idiota? Cliquei no botão verde.
Depois de apertar o botão verde eu estiquei os braços e pensei em
dormir, mas para minha surpresa surgiu uma notificação. Respostas?
Mal havia passado dois minutos. Idiota ou não, os membros desse
clube eram rápidos e bastante dedicados ao trabalho deles. Abrindo o
novo e-mail, eu li:
Bem-vindo
e parabéns pela coragem de se autodeclarar um idiota. Mas ainda há
muito para percorrer. Me encontre amanhã na Praça Júlio Freitas às
16h00.
Fui dormir depois dessa. Quem era esse povo, afinal? Um
tipo de sociedade secreta? No dia seguinte, eu fiz como me disseram e
lá estava eu na praça de tarde. Sentado em um banco, olhei para os
lados por muito tempo e então ouvi, vindo de trás, alguém falando,
na verdade sussurrando:
- Ei, aqui. O cara de óculos e boné.
Olhei para trás e ao pé do poste estava um sujeito que se
enquadrava na descrição. Magrelo, bigodinho tímido, óculos de sol
e um boné preto. Quase pensei que fosse um pervertido sexual, mas
para o meu alívio era somente um idiota. Ou seja, exatamente quem eu esperava encontrar.
Quando me virei fui confrontado por um protesto. O de boné se
recusava a falar comigo me olhando no olho ou mesmo sentado ao meu
lado.
Comecei a me perguntar se eu era idiota o suficiente para aquilo.
Comecei a me perguntar se eu era idiota o suficiente para aquilo.
- Vamos falar assim mesmo. Então, amigo, você veio de carro?
- Sim. - respondi.
- Beleza. Eu vou entrar no meu. É um fusca azul. Me segue. Vamos até
nossa sede, um pouco longe. Lá te apresento o resto do pessoal.
- Certo.
- A propósito, eu sou o Cobra Coral. Vamos lá.
Quase soltei uma gargalhada ali no meio da praça. Uma senhorinha que
passava na minha frente me olhou esquisito. Mas me contive. Cobra
Coral? Sério? Mas assim que me recuperei pude ouvir um carro
batendo. Cobra Coral estava partindo, então entrei em meu carro e
comecei a segui-lo.
O caminho foi, como ele disse, um pouco longo. Fomos parar quase do
outro lado da cidade. Fiquei pensando, durante a viagem, no nome dos
outros membros do clube. Imaginei o Cascavel, a Jiboia, talvez
tivesse uma Jararaca. Mas além disso perguntas pairavam no ar. Como
tinham me encontrando e como me escolheram?
A sede era uma casa antiga e de dois andares. Não era coisa de rico
mas também não eram nenhum barraco. Mais tarde descobri que
pertencia ao tio de um dos membros. Quando finalmente entramos eu
fiquei surpreso em ver tanta gente comum, Eu usaria essa palavra.
Não eram pessoas que pareciam ter problemas mentais nem pareciam ser
usuárias de drogas. Vi personagens normais, nada de anormal. Exceto
o Cobra Coral, ele sempre foi esquisito.
- Pessoal, aqui está o nosso novo amigo.
Todos soltaram um "urra!" e me cumprimentaram
calorosamente. O clube era formado por treze pessoas (contando o
Cobra Coral). O nome esquisito, ou melhor, apelido engraçado de
Cobra Coral ficou claro assim que fui conhecendo os integrantes um a
um.
O líder era o Pirata, um professor barbudo de meia-idade. Mais tarde
fui saber que era casado e tinha três filhos.
Cobra Coral era o esquisito. Já esteve no exército, perdeu um olho
durante um treinamento e nunca quis voltar.
Macaca era um mulher gorda que aparentava ter quarenta e cinco anos, manicure. Estava sempre sorrindo.
Astronauta era também professor e sempre quis ser político, mas
gostava da carreira no clube.
Girafa era uma mulher alta e de personalidade difícil, estudante de
alguma coisa.
Vênus era a mais nova e a mais reservada.
Vênus era a mais nova e a mais reservada.
E finalmente Atlântico. Não há muito o que dizer sobre ele exceto
que ele tinha cara de idiota (já estava me acostumando com essa
palavra quando o conheci).
- Bem-vindo. No nosso clube agimos como idiotas porque queremos.
Vamos te dar um apelido.
- Que tal Fofinho? - disse Macaca.
- Prefiro Himalaia. Combina com ele. - foi a vez de Cobra Coral.
- Temporal. Seria ótimo. - acrescentou Girafa.
- Hmmm, vou te chamar de Batata. Tudo bem? - perguntou Pirata.
- Ah, tá. - respondi meio que assustado.
Então teve início mais uma "sessão", como eles mesmo me
disseram que se chamava os sessenta minutos diários de "idiotice"
deles. Uma sessão consistia em fazer qualquer coisa, desde falar
baboseiras andando em círculos até tirar as roupas e rolar no chão
como um cachorro. Era um loucura.
Porém, antes de qualquer coisa eu acabei sabendo que foi durante o
episódio do restaurante com minha agora ex-namorada que me
descobriram. Atlântico estava lá pois ele era ninguém menos que o
dono do restaurante. Foi o que ele mesmo que contou enquanto urinava
no próprio rosto deitado no chão.
- Segue nosso ritmo. - disse Macaca enquanto dançava em um canto da
sala.
- Entre no nosso clube! - disse Pirata. - Você é um idiota, né?
Foi um momento crucial. Eu era? Tinha aceitado entrar no clube e lá
eu estava. Será que eu deveria ir embora? Afinal, eu tinha
dignidade. Eu sempre me achei inteligente, capaz. Tudo aquilo era
coisa de animal. Eu não fazia parte daquilo.
Estufei o peito e me virei. Tinha que ir embora.
- Não vamos te julgar! - gritou Girafa.
Ouvi aquilo e pensei em minha ex-namorada. Pensei no "hum"
dele e como ela me odiava. Ela me odiava, eu tinha certeza. Naquele
momento já deveria estar trasando com outro e pensando como eu nunca
pude satisfazê-la. Ela me achava um idiota. Quem sou eu para negar?
Eu era um idiota.
Rasguei a camisa e tirei as calças. Comecei a balbuciar palavras.
Quando me dei conta estava deitado no chão soltando um som novo que
eu havia aprendido.
"Hum".
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