16 de setembro de 2019

Os Idiotas

- Hum.

Foi a única resposta dela. Acabou ali naquele restaurante, nosso namoro de um ano já era. E em pensar que eu já amei aquela menina do fundo do coração. Depois de tudo que passamos a resposta dela foi somente "hum" na frente de tantas pessoas. Para mim soou como um murmúrio quase animalesco, algo que eu ouviria de um suíno ou outro animal. Por isso senti um tanto que raiva naquele pequeno momento em que ela emitiu aquele som e deu as costas para mim, sem contar com o fato de eu ter armado toda aquela cena bonita em um estabelecimento tão chique só pra receber tal resposta. Fiquei imaginando ela com orelhas de burro e nariz de porco e vestindo uma larga camiseta com os dizeres "sou uma idiota".

Eu não me considerava um idiota. Mesmo depois de tudo que ela me acusou, mesmo depois de todos os "você não me valoriza" e "qual é seu problema?". Mas será que eu era mesmo um idiota? Comecei a me perguntar isso não depois de horas de reflexão sobre minha ex, mas sim depois de receber aquele misterioso e-mail.

Estava na frente de meu PC ajeitando uns trabalhos quando ouvi o barulho. Uma notificação. O remetente era "clubedosidiotas@email.com". No texto que descrevia o assunto da mensagem dizia: "você é um idiota?". Uma pergunta que me deixou bolado principalmente depois do que tinha acontecido mais cedo no restaurante.

Havia um texto e dois botões, além de uma imagem de um asno. O texto do e-mail dizia:

Olá. Somos um clube composto por homens e mulheres de diversas faixas etárias e de diversas classes sociais que estão cansados do julgamento da sociedade. Estamos fartos de apelidos como"idiota", "babaca" e "imbecil". Por isso decidimos criar o nosso pequeno mundo onde podemos, enfim, remover nossas mascaras e agir da maneira mais estúpida possível.

Observamos que você se encaixa no nosso perfil. Você é um idiota? Há dois botões abaixo, se clicar no verde você estará respondendo este e-mail com uma mensagem afirmativa, caso clique no vermelho negará nosso convite e voltará a ser um idiota enrustido.

Ponderei muito antes de enviar minha resposta. Será que eu era idiota? Primeiramente pensei em negar o convite. Quem quer que tivesse enviado aquele e-mail só podia querendo me insultar e tirar uma com minha cara. Idiota? Eu? Minha mãe não criou um idiota. E então eu pensei na minha namorada, digo, ex-namorada e pensei no jeito que ela olhava para mim no fim de nosso relacionamento e como eu tratava ela (como um idiota) e pensei também, claro, no "hum" que ela me deu, quase um coice. Basicamente eu pensei em toda a minha vida e nos momentos em que errei, os momentos em que fui idiota.

Era eu um idiota? Cliquei no botão verde.

Depois de apertar o botão verde eu estiquei os braços e pensei em dormir, mas para minha surpresa surgiu uma notificação. Respostas? Mal havia passado dois minutos. Idiota ou não, os membros desse clube eram rápidos e bastante dedicados ao trabalho deles. Abrindo o novo e-mail, eu li:

Bem-vindo e parabéns pela coragem de se autodeclarar um idiota. Mas ainda há muito para percorrer. Me encontre amanhã na Praça Júlio Freitas às 16h00.

Fui dormir depois dessa. Quem era esse povo, afinal? Um tipo de sociedade secreta? No dia seguinte, eu fiz como me disseram e lá estava eu na praça de tarde. Sentado em um banco, olhei para os lados por muito tempo e então ouvi, vindo de trás, alguém falando, na verdade sussurrando:

- Ei, aqui. O cara de óculos e boné.

Olhei para trás e ao pé do poste estava um sujeito que se enquadrava na descrição. Magrelo, bigodinho tímido, óculos de sol e um boné preto. Quase pensei que fosse um pervertido sexual, mas para o meu alívio era somente um idiota. Ou seja, exatamente quem eu esperava encontrar.

Quando me virei fui confrontado por um protesto. O de boné se recusava a falar comigo me olhando no olho ou mesmo sentado ao meu lado.  

Comecei a me perguntar se eu era idiota o suficiente para aquilo.

- Vamos falar assim mesmo. Então, amigo, você veio de carro?

- Sim. - respondi.

- Beleza. Eu vou entrar no meu. É um fusca azul. Me segue. Vamos até nossa sede, um pouco longe. Lá te apresento o resto do pessoal.

- Certo.

- A propósito, eu sou o Cobra Coral. Vamos lá.

Quase soltei uma gargalhada ali no meio da praça. Uma senhorinha que passava na minha frente me olhou esquisito. Mas me contive. Cobra Coral? Sério? Mas assim que me recuperei pude ouvir um carro batendo. Cobra Coral estava partindo, então entrei em meu carro e comecei a segui-lo.

O caminho foi, como ele disse, um pouco longo. Fomos parar quase do outro lado da cidade. Fiquei pensando, durante a viagem, no nome dos outros membros do clube. Imaginei o Cascavel, a Jiboia, talvez tivesse uma Jararaca. Mas além disso perguntas pairavam no ar. Como tinham me encontrando e como me escolheram?

A sede era uma casa antiga e de dois andares. Não era coisa de rico mas também não eram nenhum barraco. Mais tarde descobri que pertencia ao tio de um dos membros. Quando finalmente entramos eu fiquei surpreso em ver tanta gente comum, Eu usaria essa palavra. Não eram pessoas que pareciam ter problemas mentais nem pareciam ser usuárias de drogas. Vi personagens normais, nada de anormal. Exceto o Cobra Coral, ele sempre foi esquisito.

- Pessoal, aqui está o nosso novo amigo.

Todos soltaram um "urra!" e me cumprimentaram calorosamente. O clube era formado por treze pessoas (contando o Cobra Coral). O nome esquisito, ou melhor, apelido engraçado de Cobra Coral ficou claro assim que fui conhecendo os integrantes um a um.

O líder era o Pirata, um professor barbudo de meia-idade. Mais tarde fui saber que era casado e tinha três filhos.

Cobra Coral era o esquisito. Já esteve no exército, perdeu um olho durante um treinamento e nunca quis voltar.

Macaca era um mulher gorda que aparentava ter quarenta e cinco anos, manicure. Estava sempre sorrindo.

Astronauta era também professor e sempre quis ser político, mas gostava da carreira no clube.

Girafa era uma mulher alta e de personalidade difícil, estudante de alguma coisa. 
Vênus era a mais nova e a mais reservada.

E finalmente Atlântico. Não há muito o que dizer sobre ele exceto que ele tinha cara de idiota (já estava me acostumando com essa palavra quando o conheci).

- Bem-vindo. No nosso clube agimos como idiotas porque queremos. Vamos te dar um apelido.

- Que tal Fofinho? - disse Macaca.

- Prefiro Himalaia. Combina com ele. - foi a vez de Cobra Coral.

- Temporal. Seria ótimo.  - acrescentou Girafa.

- Hmmm, vou te chamar de Batata. Tudo bem? - perguntou Pirata.

- Ah, tá. - respondi meio que assustado.

Então teve início mais uma "sessão", como eles mesmo me disseram que se chamava os sessenta minutos diários de "idiotice" deles. Uma sessão consistia em fazer qualquer coisa, desde falar baboseiras andando em círculos até tirar as roupas e rolar no chão como um cachorro. Era um loucura.

Porém, antes de qualquer coisa eu acabei sabendo que foi durante o episódio do restaurante com minha agora ex-namorada que me descobriram. Atlântico estava lá pois ele era ninguém menos que o dono do restaurante. Foi o que ele mesmo que contou enquanto urinava no próprio rosto deitado no chão.

- Segue nosso ritmo. - disse Macaca enquanto dançava em um canto da sala.

- Entre no nosso clube! - disse Pirata. - Você é um idiota, né?

Foi um momento crucial. Eu era? Tinha aceitado entrar no clube e lá eu estava. Será que eu deveria ir embora? Afinal, eu tinha dignidade. Eu sempre me achei inteligente, capaz. Tudo aquilo era coisa de animal. Eu não fazia parte daquilo.

Estufei o peito e me virei. Tinha que ir embora.

- Não vamos te julgar! - gritou Girafa.

Ouvi aquilo e pensei em minha ex-namorada. Pensei no "hum" dele e como ela me odiava. Ela me odiava, eu tinha certeza. Naquele momento já deveria estar trasando com outro e pensando como eu nunca pude satisfazê-la. Ela me achava um idiota. Quem sou eu para negar?

Eu era um idiota.

Rasguei a camisa e tirei as calças. Comecei a balbuciar palavras. Quando me dei conta estava deitado no chão soltando um som novo que eu havia aprendido.

"Hum".

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